CHAPÉUZINHO VERMELHO


CHAPÉUZINHO VERMELHO
Era uma vez uma jovem chamada Chapeuzinho Vermelho que vivia a beira de uma grande floresta com árvores e plantas exóticas num belo exemplo de integração entre utilização natural dos recursos e urbanização.
Chapeuzinho Vermelho vivia com sua genitora, a qual ela tinha o hábito de chamar como “mãe”. No entanto, a utilização deste termo não implicava que ela trataria com menos respeito outras pessoas com as quais ela não tivesse uma grande ligação biológica. Da mesma forma ela não pretendia denegrir ou menosprezar os valores tradicionais das estruturas familiares.
De qualquer forma, Chapeuzinho insiste em registrar que lamenta se algum destas impressões pejorativo possa ser deduzido desta estória
Um dia, a Mãe de Chapeuzinho Vermelho pediu que ela transportasse uma cesta de frutas sem tratamento químico e água mineral para a casa de sua avó.
“Mas, mãe, tal iniciativa não seria roubar o trabalho de pessoas sindicalizadas que lutaram anos a fio pelo direito de exercer sua atividade profissional na qualidade de transportadores?”
A Mãe de Chapeuzinho garantiu-a que todas as formalidades já haviam sido providenciadas junto ao sindicato de transportadores e o formulário autorizando esta missão autônoma já estava devidamente carimbado.
“Mas, mãe, você não está me oprimindo com esta ordem?”
A Mãe explicou-lhe que é impossível que uma mulher oprima outra mulher, posto que todas as mulheres são igualmente oprimidas por uma sociedade machista.
“Mas, mãe, não deveria ser o meu irmão, na sua condição de opressor, que deveria se encarregar desta tarefa no intuito de aprender a condição de oprimido?”
A Mãe lembrou-lhe que seu irmão estava participando de uma passeata pelos direitos dos animais, além disto a tarefa em questão não poderia ser considerada uma típica tarefa feminina, mas sim uma atitude que visa o sentimento de comunhão e companheirismo entre mulheres.
“Mas, mãe, não estaríamos então oprimindo Vovó através da mensagem subliminar que ela está velha demais para garantir sua própria subsistência?”
A Mãe lhe assegurou que Vovó não estava doente nem incapacitada nos planos físico e mental, ainda que nenhuma desta condições implique que alguém possa ser considerado inferior a pessoas ditas saudáveis.
Convencida e segura de seus atos, Chapeuzinho Vermelho partiu pela floresta. Várias pessoas consideram a floresta como um lugar perigoso, mas Chapeuzinho sabia que este tipo de medo irracional está baseado em paradigmas culturais impostos por uma sociedade patriarcal que encara a natureza como um conjunto de recursos a serem explorados, e por esta razão acredita que predadores naturais são adversários.
Outras pessoas evitavam a floresta por medo de ladrões e marginais, mas Chapeuzinho acreditava que numa sociedade justa e não hierárquica todas as pessoas poderiam exercer seu direito de viver segundo suas próprias regras sem serem taxadas como “marginais”.
No caminho, Chapeuzinho passou por um lenhador e observou algumas flores, :porém momentos após ela se viu frente a um lobo. O lobo perguntou-lhe o que ela carregava na cesta.
Chapeuzinho Vermelho, lembrando-se que sua professora havia recomendado a prudência quando estranhos tentassem falar com ela, hesitou.
No entanto, segura de si e consciente de sua sexualidade, decidiu responder ao lobo.
“Eu estou levando mantimentos saudáveis para a minha Avó num gesto de solidariedade.”
O lobo então comentou que não era seguro para uma menina passear pela floresta sozinha.
“Eu me sinto completamente ofendida pelo seu comentário sexista, apesar disto eu decidi ignorá-lo por causa do seu status social de excluído. A pressão da sociedade é a verdadeira responsável pelo desenvolvimento deste seu ponto de vista alternativo. Agora, com licença, pois vou retomar o meu caminho.”
O lobo, provavelmente devido a sua condição de excluído, pode adotar um pensamento não – linear fora dos padrões ocidentais e da moral judaico-cristã que o levou a utilizar um caminho alternativo para chegar antes de Chapeuzinho a casa da Vovó.
Lá chegando, devorou (lato sensu) a Vovó numa ação afirmativa de sua condição de predador desprovido de escrúpulos. Então movido por noções rígidas e tradicionais de comportamento o lobo vestiu a camisola da Vovó e deitou-se na cama cobrindo moralisticamente todas suas partes que poderiam denunciá-lo (anatômicamente falando).
Chegando a casa da Vovó, Chapeuzinho sentenciou: “Vovó, eu lhe trouxe um lanche gratuito para saudá-la em sua condição de sábia e madura matriarca!”
O lobo respondeu suavemente: “venha cá, minha netinha para que eu possa te ver .. .”
“Nossa! Vovó, que olhos grandes que você tem!”
“Você esquece que eu tenho certas deficiências visuais totalmente compatíveis com minha idade, apesar disto não afetar em nada minha capacidade ou qualificação como ser humano produtivo e válido para a sociedade”
“E Vovó, que nariz enorme você tem …”
“Naturalmente, eu poderia ter mudado isto, mas resolvi não ceder às pressões sociais da estética e do consumismo.”
E Vovó, que dentes afiados você tem …”
Nisto o lobo, não aguentando mais o proselitismo da discussão e numa típica reação de seu meio social, saltou da cama pegando Chapeuzinho e abriu sua bocona …
Chapeuzinho, porém retorquiu: “Eu creio que você está esquecendo de me pedir a permissão para aumentar o nosso nível de intimidade.”
O lobo surpreso ficou sem ação e neste momento o lenhador entra pela porta agitando seu machado: “Não se mexa!”
“O que você pensa que está fazendo?” Perguntou Chapeuzinho. “Se eu lhe deixo me ajudar agora, eu estarei expressando uma falta de confiança em mim mesma e em minhas capacidades, o que causaria uma tremenda falta de auto – estima que poderia se refletir inclusive no meu desempenho escolar.”
Porém o lenhador não se intimida e responde: “Última chance baby, afaste-se desta espécie protegida, eu sou um agente credenciado do IBAMA.”
Como Chapeuzinho não considerou fundamentada a imposição imperialista e policial, o lenhador num movimento seco deu uma machadada certeira na contraventora.
“Ainda bem que você chegou a tempo!” Disse o lobo aliviado. “Esta jovem e sua Avó haviam me capturado nesta ideologia de violência.”
“Não.” Diz o lenhador. “A verdadeira vítima aqui sou eu, que tive que lidar com minha raiva profunda e encarar de frente todos os meus fantasmas.
E ainda vou ter que lidar com o imenso trauma de ter tido contato com uma parte violenta da minha essência para a qual minha formação pessoal não estava preparada a afrontar.”
“Eu sinto sua dor.” Condescendeu o lobo.
Os dois se abraçam fraternalmente.


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